Experimentos reais manuseados à distância otimizam o acesso das escolas a práticas de laboratório
Projeto “Experimentação remota como suporte a ambientes de ensino-aprendizagem”
A rede escolar de Santa Catarina conta com uma tecnologia pioneira e ainda pouco difundida para apoiar as aulas de ciências naturais. Utilizando dispositivos de interação à distância, como câmeras e comandos via web, alunos e alunas manuseiam, a partir de suas escolas, experimentos reais situados no Laboratório de Experimentação Remota (RExLab) da Universidade Federal de Santa Catarina. Diante da carência de infraestrutura laboratorial em boa parte das unidades escolares, a solução permite o uso compartilhado — e portanto otimizado e barato — de recursos e experimentos de qualidade que, de outra maneira, ficariam subaproveitados.
Juarez Bento da Silva, professor e pesquisador da UFSC e um dos coordenadores do projeto, exemplifica o conceito. “O professor está trabalhando num quadro elétrico para ensinar associação em série paralela. Ele faz a parte teórica e depois vai ao laboratório, onde mostra fisicamente a coisa acontecendo e os alunos controlam lâmpadas e chaves. Quando o aluno abre o site do laboratório, ele visualiza um painel e existe uma câmera conectada a cada experimento. O aluno age sobre o experimento. A escola agenda um horário e os alunos também podem agendar outros horários para continuar explorando. Fica tudo online 24 horas, porque um dos nossos objetivos é minimizar os custos e otimizar o uso dos recursos.”
O projeto vem sendo desenvolvido desde 1997 e é acompanhado por pesquisadores do Brasil, Portugal, Espanha, Chile e Suécia. Em 2009 recebeu o prêmio FRIDA/eLAC do Fundo Regional para a Inovação Digital na América Latina e Caribe. Para acessar o ambiente, basta que as escolas se cadastrem no portal do RExLab; a experiência está em piloto no estado de SC, mas é aberta para a participação de outras instituições de ensino.
A iniciativa agrega à experimentação remota propriamente dita ferramentas de realidade virtual em 3D. E, na medida em que também se articula com as atividades convencionais de ensino presencial, pode inspirar modelos híbridos (e inovadores) de educação.
Juarez Silva ressalta a importância da opção pelo uso de ferramentas de código aberto e pela divulgação dos resultados em formato livre: “Tudo o que for construído tem que ser de baixo custo. E tudo é livre, tanto hardware quanto software, porque existe uma intenção de democratização. Isso se impõe. Se queremos disponibilizar recursos para uma rede cada vez mais vasta de pessoas e instituições, não faz sentido que seja em uma plataforma, ou a partir de instrumentos, que tenham donos”.
Não apenas pelo uso de tecnologia avançada, mas também por ser uma estratégia que contribui para um necessário avanço no que toca ao uso de experimentos laboratoriais no ensino das ciências naturais, o projeto espera estimular entre os jovens a curiosidade, a criatividade e a capacidade de inovação dos alunos, despertando interesses em relação às áreas da tecnologia e da ciência.
Dentre os desafios que o projeto enfrenta, Silva cita a comum dificuldade que propostas educativas exógenas à escola encontram para conseguir a adesão dos professores. “Mas a grande barreira que encontramos na aplicação”, relata o pesquisador, “é o desconhecimento das pessoas a respeito do tema e das ferramentas. [Em 2006] fiz uma pesquisa junto a todas as instituições brasileiras que ofertavam EaD. Enviei 110 questionários e apenas uma instituição sabia o que era a experimentação remota.”
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